Baba impressa

Alta Conselheira expressa dúvida cruel, que, provavelmente, passa pela cabeça de muita gente:

Ivson, você que acompanha essas coisas muito mais de perto do que eu e é mil vezes mais articulado, me ajuda aqui a entender o porquê de a grande imprensa estar tão enlouquecida contra a Dilma.

Veja bem, o empresariado nacional tem vários nichos simpáticos ao governo; as multis, mais ainda. O mercado financeiro tem uma expressiva parcela torcendo pela Dilma. Por que a direita conservadora antipetista encontrou abrigo junto aos jornalões? Você deve se lembrar que, nos dois primeiros anos do primeiro governo Lula, a imprensa era em geral condescendente. E que mesmo na campanha de 2002 não estava estrebuchando e cuspindo fogo quando ficou claro que o Serra perderia.

Então, algo aconteceu na segunda metade do primeiro governo Lula, por aí, que deixou a imprensa cada vez mais anti-Lula e que resultou na barbárie que estamos vendo agora. Aí imaginei que poderia ter algo a ver com a ação do governo em relação a internet, banda larga, Anatel, enfim, um tema que não acompanho de perto mas você, sim. Estou no caminho certo?”

 Bem, acredito que haja questões pendentes como essa e outras -, por exemplo a falta de ação do governo contra a concorrência dos portais e o repasse maior das verbas publicitárias para os veículos regionais, em detrimento da grade mídia, que sempre foi privilegiada. No entanto, também creio que, por mais que sejam assuntos que provoquem choques, não explicam a verdadeira loucura que parece ter tomado conta dos grandes veículos de comunicação impresso nesta campanha eleitoral.

A certa condescendência dos primeiros anos de que fala a Conselheira me parece ter sido fruto da certeza da grande mídia de que N-D daria com os burros n’água, com base no aperto econômico de 2003 (lembra dele?). Este aperto, porém, foi revertido logo em 2004 e o Natal daquele ano foi uma explosão de consumo dos mais mais pobres que anunciava o que estava por vir.

Alertada, a grande mídia embarcou com tudo na aventura de tentar derrubar N-D, em 2005, com o mensalão. Dando N-D como politicamente morto, a oposição nem se deu o trabalho de pedir o impeachment, pois a vitória em 2006 era certa. Veio a eleição e deu no que deu. Foi seriíssima derrota política, mas que a imprensa atribuiu – com algum acerto – à incompetência do PSDB.

A partir daí, a coisa só fez piorar, do ponto de vista dos grandes veículos de comunicação. O país decolou, N-D virou o pai de uma nova classe média e agora ameaça eleger uma pessoa dada como inexpressiva para sucedê-lo em primeiro turno. Nesse ponto confluem a questão puramente política de uma derrota ainda mais séria do que a de 2006 para a imprensa – dessa vez, não poderá culpar apenas os tucanos, já que vem agindo há tempos como partido político – com o que a minha formação marxista vê como a boa e velha luta de classes.

Na minha concepção, tão séria – ou até mais – do que a derrota política na eleição será a derrota política de longo prazo, pois o resultado de 3 de outubro, se mantida a atual tendência, terá sido obtida graças àquela nova classe média, cuja emergência não poderá ser detida – e muito menos revertida – até porque a parte racional da elite brasileira, citada pela Conselheira, sabe que ela é essencial para o desenvolvimento capitalista do Brasil. Como parte do setor mais reacionário da elite – estilo clã Bornhausen -, os donos dos veículos de comunicação e os principais editores e colunistas deles não podem, porém, admitir isso.

Por quê? Ora, a continuar assim, o valor do trabalho de uma empregada doméstica chegará às alturas (ouvi essa queixa neste fim de semana mesmo de um doutoranda em meio ambiente da UFRJ) e os filhos dessa empregada – que pode ter acesso a computador Positivo pelas Casas Bahia e, talvez, a um outro, usado, da patroa – passam a ter chances maiores de não se tornarem porteiros, mecânicos, manobristas, seguranças, manicures ou empregadas domésticas. Como não só os donos dos veículos e boa parte dos colunistas e “aquarianos”, mas como boa parte dos assinantes dos veículos, não querem ter essa concorrência, chegamos à baba que escorre hoje das páginas que, em tempos mais escravagistas, deixam vazar apenas o sangue dos pobres.

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