Alerta laranja

Está ficando realmente muito feia a coisa. A perda de credibilidade do jornalismo brasileiro – muito por causa dos próprios jornalistas – está começando a passar para o desrespeito puro e simples.

Ontem, não vi o jogo em que o Fluzão assumiu a liderança do Brasileiro. Chegando em casa tarde, liguei a TV para ver como tinha sido a partida. Não deu, mas assisti, em três minutos, duas cenas constrangedoras para a “catchigoria”:

1. Entrevista coletiva do Felipão: “vocês ficam tentando induzir o joador a falar bobagem de cabeça quente. Não vou mais permitir isso. A partir de amanhã, vou determinar que quem falar com jornalista sem ordem, vai pagar 5 mil, 10 mil para caixinha. Aí acabou”.

2. Entrevista coletiva de Wagner Mancini, treinador do Guarani. Ele é perguntado, de maneira educada, porque Fabinho, bom ponta e ídolo da torcida, não tem ficado nem no banco nos últimos dois jogos: “Já vi que vocês gostam muito do Fabinho…” começou ele, exsudando sarcasmo.

Péssimo, né? Mas tem pior. “Isso aconteceu mesmo ou é invenção de jornalista?”, perguntou o apresentador de um programa de rádio, que a cara-metade ouviu no táxi, hoje de manhã.

Esse desrespeito tem raízes lá atrás. No fim dos anos 90, escrevi aqui, na Coleguinhas (na época um site até bem taludo e não um simples blog), que o constante insulto à inteligência do público perpetrado pelos jornalistas ainda ia proporcionar sérios problemas não apenas aos veículos – com queda de audiência -, mas também aos próprios profissionais.

De lá para cá, os insultos multiplicaram praticamente ao infinito, como se pode observar, literalmente todos os dias, apenas folheando jornais (sem contar rádios, TVs e internet). A ação de pessoas truculentas como Felipão e Mancini (e Leão, mas esse é caso patológico mesmo) é resultado do escárnio diário dos profissionais de jornalismo em relação à capacidade de julgar do distinto público. Em reação, este passa a ficar indiferente à violência (pelo menos a verbal) contra os jornalistas (você lembra que houve significativo apoio ao Dunga quando ele destratou o Alex Escobar de público durante a Copa?). Aí felipões e mancinis se sentem autorizados a atacar quem faz perguntas das quais não gostam e “comunicadores” ficam à vontade para chamar jornalistas de mentirosos em seus programas.

Vai melhorar? Dificilmente. Afinal, para haver reversão desse quadro, em primeiro lugar, é necessário que aqueles que trabalham se dêem ao respeito. Uma atitude em direção da qual não se vê nenhum sinal.

Anúncios