Um blogueiro de araque

Não entendi muito bem a coluna do Ricardo Noblat de hoje. Ele, que se diz blogueiro, investe contra a internet usando para condená-la de argumentos que servem também para deixar mal a sagrada imprensa que ele defende. Se não vejamos:

1. Noblat diz que os internautas acusam os jornais (e jornalistas, por conseguinte) de manipular informações, mas cometem o mesmo crime. Assim, como não defende os jornais (e jornalistas) da acusação, apenas dizendo que os acusadores também merecem ser acusados, conclui-se que Noblat admite que jornais (e jornalistas) realmente manipulam as informações.

2. Noblat diz que a internet é pior do que a imprensa porque não tem leis que a regulamentem. “Ouse sugerir algum tipo de regulamento que discipline o que deve ser postado (…). Com certeza você será execrado como o mais vil dos inimigos ao direito universal do livre acesso à informação e à opinião”, escreveu o nobre Noblat. Bem, letra por letra, a assertiva pode ser usada contra os donos dos veículos de comunicação. É só lembrar o que aconteceu quando das tentativas do governo de N-D de criar o Conselho Nacional de Jornalismo para observar a incongruência (não, não vou escrever cinismo, não, pode esquecer) do argumento noblatiano.

3. Noblat diz que quem ferir injsutamente a imagem de alguém ou alguma instituição será processado na Justiça e condenado. É possível, mas e se isso ocorrer mesmo (sempre anos depois, dada a lentidão de nossa Justiça)? Que tipo de reparação terá essa pessoa ou instituição? Alguns milhares de reais, se tanto, pois os barões da mídia conseguiram pôr um teto legal ao valor da honra alheia. O prejuízo moral,porém, será irreparável. O caso da Escola Base terá sido esquecido pelo colunista do Globo?

Obviamente, a internet tem um monte de defeitos, mas um ela não tem – o de impor uma verdade. Na Grande Rede, há o contraditório por definição. Pode ser baixo nível (como acontece em um número maior de vezes do que se desejaria), mas, ainda assim, é melhor isso à imposição da verdade por parte de jornais (e jornalistas), como ocorria antes dela. É essa inevitabilidade do contraditório na internet que tanto irrita Noblat e pessoas como ele, acostumadas falar o que quiserem sem ter oposição. Mas você terá que se acostumar, meu velho. Aquilo que nossas mães diziam – “quem fala o que quer, ouve o que não quer” – deixou de ser apenas um ditado popular. Agora é um modo de viver e estar no mundo.

3 comentários sobre “Um blogueiro de araque

  1. Concordo inteiramente com seu comentário. A questão da falta de controle da internet é emblemática. Se falássemos em falta de controle da imprensa/jornais, viriam os brados da ANJ, Abert, etc. contra mais uma tentativa de trazer de volta a censura. Agora, criticar a falta de controle da internet só falta ser considerado um gesto de patriotismo…

  2. Bela observação a respeito da criatura, tuitei várias vezes. Parabéns

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