Rio-2016: cobrança aos coleguinhas

Como já era esperado (afinal, a criatividade não é bem o forte dos jornalistas), os editoriais começaram a cobrar dos governantes que invistam em educação, saúde, transporte etc etc no processo da Rio-2016. Também como era óbvio, as colunas (cada vez mais parecidas com minieditoriais, dada à afinação completa de seus titulares com as linhas dos jornais) convocam a população a fiscalizar os governantes. Beleza. O óbvio precisa ser feito, até por ser óbvio. Mas falta um lado nessa história, certo? O lado de vocês, coleguinhas.

“Ah! Mas nós fazemos o nosso denunciando”, dirão vocês. Confortável isso, hein? É só apontar o dedo e tudo bem… Não, velhos, não está nada bem. Falta o resto, o outro lado. Um exemplo para facilitar o entendimento (jornalista era bom de abstração antigamente, mas isso se perdeu em algum momento). Há reclamações, lamúrias, acusações contra o fato de os equipamentos esportivos do Pan não estarem sendo usados pelos cariocas. Pecado dos governos e dos cartolas? Claro! Mas não tive notícias de manifestações de associações de moradores, de pais de alunos, de professores, de ninguém exigindo a abertura desses equipamentos à comunidade. Não soube de nenhum protesto na porta do Guanabara, do Palácio da Cidade ou das confederações cobrando isso e/ou projetos para uso daqueles equipamentos em massificação esportiva. E também não li, vi ou ouvi editoriais e colunas incentivado essa participação ativa da sociedade.

O livro “A cabeça do brasileiro”, de Alberto Carlos Almeida, é liberal-diretista até o último mililitro de tinta, mas suas conclusões merecem reflexão até para uma crítica. Uma delas é que, para o brasileiro, “cada um cuida do que é seu, o governo cuida do que é de todos “. Como é óbvio, esse tipo de raciocínio é um cheque em branco para os governantes. Ora, qualquer um que chegue ao poder, passa a só ter uma preocupação na vida: permanecer no poder (e isso vale em qualquer lugar – em empresas, em relacionamentos, dentro de casa. “Todo poder corrompe”, dizem, com carradas de razão, os companheiros anarquistas). Assim, se qualquer ator social acha que um governante está mais preocupado com a sociedade do que com sua própria carreira política, deve acreditar também em papai noel, coelhinho da páscoa e mula-sem-cabeça.

Dessa maneira, se os coleguinhas estão sinceramente preocupados com o legado da Rio-2016 devem, necessariamente, incentivar diretamente a participação popular ativa na fiscalização do evento, antes, durante e, principalmente, depois. Não é só ficar gritando, como propala, algo comicamente, a campanha d’O Globo, mas dar força à organização popular mesmo. Só vou acreditar que os veículos e os coleguinhas estão mesmo ao lado dos cidadãos quando ler editoriais e colunas incentivando manifestações e a publicação de agendas de reuniões de associações comunitárias nos jornais. Enquanto isso não acontecer, ficará tudo no blábláblá da pseudocidadania, do marketing e da política.

3 comentários sobre “Rio-2016: cobrança aos coleguinhas

  1. Oi, Ivson, concorrrrrdo, menino!!!
    Vi numa lista de discussão de que participo o eterno “vai ter superfaturamento, blá blá blá” e fiquei bem chateada, porque eram pessoas com bom nível de informação – inclusive acreditam ter capacidade crítica acima de média (no coments) -, e se limitaram a vomitar “que vergonha, gastar esse dinheiro”, “e a segurança no Rio?”, “o Lula blá blá blá “. Nenhum crítico disse: “epa!! Quero vigiar de perto, meu irmão!”.
    Que venha 2016!!

  2. É isso aí. Está na hora de fazer a população acordar, também, e incentivar a participação mais ativa. É muito fácil ficar reclamando, dizer que é preciso votar etc. Mas e o debate? E a discussão sobre o que deve ser feito? A sociedade precisa aprender a debater, e o jornalismo precisa estimular essa ação.

  3. Pingback: Por que ninguém quer o debate? | Butuca Ligada

Os comentários estão desativados.