Fim do diploma: uma história edificante

A amiga era chefe de reportagem da Folha em São Paulo, no fim dos anos 80, mesmo sendo carioca do Méier e tendo começado sua carreira no jornal na sucursal carioca. Era um desafio e tanto estar ali, naquele posto, naquele jornal, com menos de 30 anos. Por esse contexto,  o problema que se apresentava era ainda maior – o jornal dera o furo de que São Paulo estaria sofrendo um surto de meningite e o secretário de Saúde do Estado, José Aristodemo Pinotti, chamara uma coletiva, certamente para desmentir a reportagem. Tudo normal, não fosse o fato de que a repórter que dera o furo, e iria cobrir a coletiva, ter acabado de ligar e avisado que estava levando o filho para o hospital, não podendo, portanto, ir trabalhar. Pior. Não havia um repórter à vista, naquela manhã.

Quer dizer, tinha um sim. Ele começara no dia anterior e, para falar a verdade, só agora reparara nele.  “Sujeito discreto”, pensou, enquanto se aproximava do jovem, que, sentado, folheava a edição daquele dia

– Olá. Eu sou a Fulana. Qual o seu nome?
– Oi. Sou o Sérgio.
– Prazer, Sérgio. Você já deve ter lido – disse ela, indicando o jornal à frente do rapaz – que demos um furo hoje. Esse caso da meningite…
– É, acabei de ler – confirmou Sérgio.
– Bom, a Sicrana está com o filho doente e não vem. Por isso, você vai na coletiva com o Pinotti, ok?
– Desculpe, mas eu não vou.

Fulana era (é) uma lady. Delicada de corpo e espírito. Por isso, o máximo de surpresa a que se permitiu foi arregalar os olhos castanho-esverdeados e exclamar um “como?” baixinho.

– Eu não vou – repetiu Sérgio, ainda tranqüilamente sentado.
– Não vai? – perguntou, incrédula, Fulana.
– Não. Não fui contratado para cobrir saúde – esclareceu Sérgio.
– Sérgio, veja…Você é jornalista e jornalista cobre qualquer coisa – tentou explicar Fulana
– Não sou jornalista. Sou arquiteto e fui contratado para fazer matérias sobre Urbanismo.

Sérgio realmente não saiu da redação e a Folha foi o único veículo de comunicação importante de São Paulo que não compareceu à coletiva em Pinotti desmentiu o furo do jornal, tendo que recuperar a matéria.

3 comentários sobre “Fim do diploma: uma história edificante

  1. \O/

  2. Engraçado… Eu sou formada em Produçao Editorial, e trabalho em uma editora. Nessa editora, existem pessoas formadas em Produçao Editorial, claro, mas também pessoas formadas em jornalismo. Tenho amigos na area de publicidade, em cujas agências trabalham publicitarios e… jornalistas.

    Nao acho estranho. Acho que pessoas formadas em comunicacao deveriam poder trabalhar em qualquer tipo de midia ou empresa ligada à comunicacao. O que eu acho muito estranho é que jornalistas possam trabalhar alegremente em agências de publicidade e em editoras de livros e que o contrario nao possa acontecer.

    Conheço o programa das escolas de jornalismo (que estudei por 2 anos antes de mudar minha opçao para Producao Editorial) e sei que, tecnicamente, o trabalho de ediçao de livros é muito mais complexo. O processo editorial exige um tipo de saber técnico que nao existe no jornalismo. Ainda assim, como para o jornalismo, uma pessoa com conhecimentos em comunicacao pode perfeitamente aprender a profissao na pratica.

    Hoje moro na França, onde (como alias em TODOS os demais paises do mundo civilizado) o diploma para jornalismo nao é obrigatorio. Mas existem aqui excelentes escolas de jornalismo, e os jornais contratam sistematicamente jornalistas formados. Todos os jovens que querem ser jornalistas continuam procurando a escola – e o diploma – porque eles terao assim mais chances de conseguir trabalho.
    Somente, o diploma nao é obrigatorio.

    Sinceramente, sinto uma tristeza muito grande de ver o tanto de energia que ex-colegas da faculdade de comunicacao estao desperdiçando nessa batalha patética. Um resquicio da ditadura que nos aproxima de paises como o Ira, a China ou a Arabia Saudita… Ditaduras nde o diploma de jornalista é ainda obrigatorio.

    Adriana Mattos

    PS. Escrevo de um teclado francês, por isso a falta de alguns acentos.

    • Adriana, não vou comentar a sua enumeração, pois desconfio seriamente que ela seja tendenciosa, pois pode/deve haver países que sejam democráticos e que o diploma para o exercício da profissão de jornalista.

      Isso, porém, não importa. Não vou discutir isso porque, como já escrevi na resposta ao Luiz Eduardo, não considero hoje o diploma uma defesa eficiente da sociedade contra o mau jornalismo – ele foi durante muito tempo, apesar de não ter sido pensado pela ditadura para exercer esse papel.

      O essencial, na minha opinião, é que haja uma controle da profissão em que os profissionais de jornalismo estejam envolvidos (mas não apenas eles, para o bem da pluralidade). Nesses países de “primeiro mundo” (seja lá o que isso signifique hoje em dia) que você citou certamente dve haver algum controle para o exercício do jornalismo. Em Portugal, como meu amigo Mansur informou, há esse controle (você pode ver como é num post abaixo). Como é na França, você pode nos fazer a gentileza de informar?

      Uma última questão – um dos dramas do jornalismo é que todos acham que sabem fazer, é algo simples. Daí a proliferação do que minha bem-humorada mulher chama de “milícias jornalísticas”, gente que “faz jornalismo com as próprias mãos. Não creio que seja simples ser jornalista, assim como não creio que seja simples ser editora de livros.

Os comentários estão desativados.