Fim do diploma: Análises (I)

O texto abaixo é de autoria de Paulo Henrique Noronha, assessor da ANAC:

A desvalorização do jornalista

A informação é matéria-prima indispensável para a democracia.

É com base nas informações que nós cidadãos, jornalistas ou não, tomamos decisões sobre nossas vidas e de outras pessoas. Votamos em candidatos, amaldiçoamos políticos, compramos produtos no surpermercado, alugamos uma casa num determinado bairro, vemos filmes, saímos de casa, contratamos um plano de saúde, escolhemos uma viagem para as férias, assinamos um jornal diário, ficamos encantados por uma pessoa que poderá a vir a ser nosso grande amor.

Todas essas ações são guiadas por informações que temos sobre o objeto ou pessoa em questão. Xingamos um político quando recebemos notícia (e acreditamos nela) de que ele é um ladrão do dinheiro público. Torcemos pelo Obama, que está a milhares de quilômetros e de quem nunca tínhamos ouvido falar há pouco mais de um ano, apenas com base em tudo que lemos e vemos sobre ele na mídia jornalística.

Em condições normais de temperatura e pressão, não fazemos nada se não soubermos alguma coisa sobre o que estamos lidando. Informação correta leva a decisões mais acertadas. Informação errada leva a decisões erradas.

Nos últimos anos, tivemos um exemplo de grande impacto internacional de como uma informação errada pode gerar trágicas consequências.

Os Estados Unidos, sob o Governo George Bush, conseguiram o apoio interno – do povo norte-americano, do Congresso e da grande imprensa – e externo (notadamente da Grã-Bretanha) para a invasão do Iraque, que jogou o país e seus aliados em novo atoleiro político-militar que em muito lembra a fase final da guerra do Vietnã. Esse apoio cristalizou-se quando o Governo Bush conseguiu convencer a imprensa de que havia provas de que o ditador iraquiano Saddam Hussein estava produzindo armas químicas de destruição em massa. Após o ataque covarde e devastador do 11 de setembro, essa nova ameaça era o suficiente para colocar o país em guerra.

A imprensa norte-americana confiou e reproduziu a informação em forma de notícia. Depois que a invasão do Iraque já estava em andamento é que os jornais começaram a descobrir que foram enganados. E, pior, acabaram enganando seus leitores ? a opinião pública, o povo norte-americano. A informação errada, vendida como verdadeira, levou o Congresso, a imprensa, a opinião pública e outros países a apoiarem a aventura do Iraque.

A função social do jornalista, e do jornalismo, é justamente levar a público informações que sejam úteis para que as pessoas tomem decisões sobre a sua vida. E essa informação tem que ser divulgada de uma forma que seu público alvo a compreenda sem dúvidas e entenda sua importância. E mais: tem que ser uma informação precisa, correta.

A apuração é apenas uma das técnicas que um jornalista aprende. Outra que é fundamental para que uma informação seja compreendida é a comunicação, que deve ser adaptada para cada público alvo, seja ele um segmento específico, sejam os milhões de leitores heterogêneos de jornais diários ou revistas semanais, ou ainda o telespectador mais do que heterogêneo do maior telejornal brasileiro, o “Jornal Nacional”, da TV Globo, com sua audiência absurda na casa da dezena de milhões de pessoas de segunda a sábado.

Essa técnica se aprende numa escola de comunicação social, curso de nível superior. Onde também se aprende a editar uma primeira página com assuntos de vários tipos. E se aprende a montar uma pauta de um jornal que vai ser apurada pela reportagem ao longo do dia. Na mesma escola onde se aprende sobre a força da imagem na TV, numa capa de revista ou num veículo diário. E sobre o tempo precioso e as características específicas do jornalismo de rádio, um veículo de grande penetração nos rincões brasileiros. E é nessa mesma escola que se estuda esse veículo novo que é a Internet, com suas imensas possibilidades ainda a serem exploradas.

Há ainda técnicas de entrevista, de formatação de texto jornalístico, de lidar com fontes em on e em off e muitas outras. Tudo isso para quê? Para que o produto final do jornalismo, a notícia, possa ser entendida por seu público alvo e tenha informações precisas e úteis para que seu leitor, ouvinte ou telespectador possa usá-las para tomar decisões no seu dia-a-dia.

Os cursos de jornalismo são ruins? Muitos são deficientes e distantes da realidade do mercado de trabalho, é fato. Então, vamos melhorá-los. Mas não é acabando com a obrigatoriedade do diploma que se consegue melhores jornalistas. Ninguém, em sã consciência, consegue encontrar uma relação de causa e efeito que indique que o fim da obrigatoriedade do diploma resultará em melhores jornalistas e em melhor informação jornalística para a sociedade.

Cabe então a pergunta, que todo bom jornalista faria: a quem interessa o crime – ou melhor, o fim do diploma? A democracia brasileira, com certeza, não ganha nada com isso. Os jornais, que tanta carga fizeram para derrubar a obrigatoriedade do diploma, achando que com isso enfraqueceriam os sindicatos de jornalistas, sinceramente, não sei o que vão ganhar. Bons jornalistas certamente é que não ganharão.

Além disso, o que essa decisão do Supremo cria? Pseudo jornalistas, falsos profissionais sem formação e sem técnica que serão contratados por patrões irresponsáveis e cada vez mais longe de sua função social.

Essa decisão do Supremo e, mais do que ela, a iniciativa dos jornalões patrocinando essa decisão, são simplesmente lamentáveis.

Resta a nós, jornalistas de verdade, tirar a carteirinha da Fenaj, que talvez venha se tornar o único documento que nos separará dos falsos jornalistas que começarão a chegar às redações. E, quando eu me deparar com qualquer pessoa sem diploma que esteja exercendo a função de jornalista, não vou considerá-lo como tal. A lei desobriga as empresas a exigirem o diploma para contratar qualquer um como jornalista. Mas não me obriga, como assessor de imprensa, a atender qualquer um que não tenha formação jornalística.

É o mínimo que posso fazer para valorizar essa peça tão importante para a continuidade da democracia – o jornalista de verdade.

Aqui faço uma ressalva. Assessoria de imprensa, na minha opinião, não é jornalismo, mas é função de jornalista. Acho que os jornalistas são ótimos profissionais, talvez os melhores, para se fazer assessoria de imprensa – que tem mais a ver com divulgação de imagem e relacionamento da empresa com o grande público do que com jornalismo propriamente dito. Mas eu já vi relações públicas e até formados em publicidade fazerem assessoria de imprensa muito bem. Particularmente, conheço uma ótima RP que tornou-se excelente assessora de imprensa na Aracruz Celulose.

Não acho que assessoria de imprensa seja função exclusiva de jornalista, é minha opinião. Acho que os jornalistas estão mais aptos para essa função, mas também acho que RPs e publicitários podem aprender rapidamente o “metié” e tornarem-se bons profissionais de assessoria, pois ela tem muito a ver também com relações públicas e publicidade.

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Um comentário sobre “Fim do diploma: Análises (I)

  1. Meu diploma quase sempre permaneceu cativo do envelope em que o MEC o embalou, 25 anos atrás. Nunca o apresentei para obter trabalho. Mesmo assim, era um papel que conferia algum respeito, um comprovante de esforço de uma família para levar seu filho a pensar um pouco mais do mundo antes de se jogar no mercado de trabalho.
    Desrespeitosa também foi a forma como se deu este fim do diploma: a partir do pleito de uma entidade patronal. Desmoralizar uma categoria, mostrar a força e o poder dos donos do dinheiro?
    A quem realmente interessa o fim do diploma? Num país bacharelista como o Brasil, que acredita no conhecimento adquirido através de MBAs,o que significa jogar uma categoria no limbo? Ah, é limbo, sim, aquilo que existia quando a gente era criança e acreditava no deus católico. De uma penada, o limbo deixou de existir. Mas o catolicismo, como qualquer religião, jamais foi democrático.

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